8 de dezembro de 2015

Eu te darei o sol, Jandy Nelson.

Oi gente! Hoje a resenha é de uma obra bem diferente das minhas leituras de ultimamente. Mas posso dizer que entrou para a minha lista de melhores do ano. Desde que a Novo Conceito investiu na divulgação de "Eu te darei o sol", foi impossível não dar uma chance a uma trama que envolve tudo o que a gente gosta: drama familiar, mistério, romance, arte e ótimos diálogos.

Noah e Jude competem pela afeição dos pais, pela atenção do garoto que acabou de se mudar para o bairro e por uma vaga na melhor escola de arte da Califórnia. Mal-entendidos, ciúmes e uma perda trágica os separaram definitivamente. Trilhando caminhos distintos e vivendo no mesmo espaço, ambos lutam contra dilemas que não têm coragem de revelar a ninguém. Contado em perspectivas e tempos diferentes, “Eu te darei o sol” é o livro mais desconcertante de Jandy Nelson. As pessoas mais próximas de nós são as que mais têm o poder de nos machucar.


Ficha Técnica: 
Autor(a): Jandy Nelson
Título Original: I'll give you the Sun
Editora: Novo Conceito
Gênero: Drama
Páginas: 384
ISBN: 978-85-8163-646-7

Livro cedido pela parceria com a editora.

A obra é narrada ora por Noah, ora por sua irmã, Jude. Quem me acompanha aqui no blog sabe do meu fascínio por gêmeos, então não poderia estar mais satisfeita. Essa narrativa não ocorre de forma linear. Noah nos conta o que aconteceu quando os dois tinham entre 13 e 14 anos, já Jude no tempo presente, com 16 anos. A escrita da autora é fluída, não tem como confundir as duas narrações e ela prende o desfecho de forma que precisamos devorar as 384 páginas imediatamente. Sim, é daqueles livros grossos que a gente quase sufoca com um final de capítulo. A narrativa de Noah é marcada por retratos e autorretratos imaginados pelo artista em situações marcantes como "Autorretrato: Uma janela se abre em meu peito". Já a da irmã é marcada por frases supersticiosas como“se um menino dá uma laranja para uma menina, o amor dela por ele se multiplicará”, retiradas da bíblia da vovó Sweetwine, recentemente falecida e a qual a Jude de 16 anos vê.

“Ou talvez uma pessoa seja feita de várias pessoas  —  digo.  — Talvez estejamos acumulando novas personalidades o tempo todo.  — Carregando-as ao fazermos nossas escolhas, boas e más, enquanto erramos, organizamos, perdemos a cabeça, encontramos nossa cabeça, desabamos, nos apaixonamos, sofremos, crescemos, nos retiramos do mundo, mergulhamos no mundo, ao criarmos coisas e destruirmos coisas.”

O enredo começa quando a mãe dos gêmeos resolve os inscrever para a escola de arte. Jude começa a sentir muitos ciúmes, com razão, porque a mãe baba pelos desenhos do irmão mostrando sua preferência. A garota então, passa a andar com surfistas e como diz a mãe, "ser aquele tipo de garota". Ela também começa a competir com o irmão e os dois se afastam. Para se preparar para entrar na escola de arte, Noah assiste aulas escondido e faz amizade com um dos modelos, um inglês bêbado. Além disso, ele está lidando com a descoberta de sua homossexualidade.  O rapaz conhece Brian, o novo vizinho, e tudo se dá muito bem com o "amigo" até Jude em uma brincadeira de armário adolescente criar o primeiro mal entendido entre eles. (pausa rápida: temos que esperar mais de 100 páginas de narrativa de Jude para descobrir o que aconteceu entre ela e Brian, socorro!)
– Eu te amo – digo para ele, mas sai algo como: – Ei.
– Eu te amo tanto – responde ele, mas sai algo como: – Cara! (Pág. 139)
No meio das relações que os irmãos estabelecem fora de casa, os pais estão se separando e para piorar, no finalzinho descobrimos que Noah sabia de um segredo de sua mãe. A Jude do presente nos revela que ela está na escola de arte e Noah não. O que nos mata de curiosidade quase que o livro todo. Além de ver a avó falecida, ela acredita que sua mãe morta destrói todas as suas criações. Sim, a tragédia que também os separa é a morte prematura da Diana Sweetwine. Para resolver isso, Jude acredita que precisa criar algo de pedra. Ela é orientada a encontrar o escultor Guillermo Garcia, que é conhecido por suas belas esculturas de pedra mas que passou por um trauma amoroso e anda bem mal. Lá ela também conhece um inglês pelo qual se apaixona, o Oscar Ralph. O rapaz não vale nada em sua jaqueta de couro e moto, e Jude, por conta dos problemas em ser "aquele tipo de menina" criou um boicote, cortando cabelos e usando roupas fechadas. Ela tenta não se render aos encantos, TENTA. As melhores partes são quando ela descreve o aspecto físico do rapaz e como ele é atraente repetindo milhares de vez NÃO QUE EU ESTEJA NOTANDO. Nem eu notei, imagina. Nessa fase da escola e longe de Brian, Noah é popular, tem Heather como "namorada" e os irmãos mal se falam.

"Não sei quanto tempo se passa enquanto eu e alguns enormes casais de pedra observamos seu trabalho (...) até que eu me pergunte se ele está fazendo a escultura ou se a escultura é que o está fazendo." (Pág. 165)

Claro que os mistérios que cercam a morte da matriarca, o fato de Jude achar o inglês familiar e Noah não entrar na escola estão totalmente ligados! Como leio muito, alguns eu fui matando antes de serem revelados. Só como Noah não entrou que eu realmente não fazia ideia. No geral, "Eu te darei o sol" cumpre o que propõe. Inclusive no título, que é repetido por Jude várias vezes em troca de um certo desenho que Noah fez, ela daria tudo, inclusive o sol. A história não possui um grande enredo tem tudo o que gostamos: mistérios, romance (gay e hetero), família e humor, por que não? o espírito da vovó é bem legal, rs. Além disso, poucas pessoas são capazes de tratar das relações interpessoais com tanta clareza e Jandy Nelson consegue. Através das coisas não ditas e de mal entendidos, vemos como uma família pode ser desfeita e como tudo pode ser recriado.
"- Ou talvez uma pessoa seja feita de várias pessoas - digo. - Talvez estejamos acumulando novas personalidades o tempo todo. - Carregando-as ao fazermos nossas escolhas, boas e más, enquanto erramos, organizamos, perdemos a cabeça, encontramos nossa cabeça, desabamos, nos apaixonamos, sofremos, crescemos, nos retiramos do mundo, mergulhamos no mundo, ao criarmos coisas e destruirmos coisas. Ele dá uma risadinha. - Cada personalidade subindo nos ombros da anterior, até nos transformarmos em frágeis pirâmides humanas?" (Pág.360)


PS: Gostei que deram um final legal para o pai deles, que sofreu tanto quanto qualquer um nessa família. E a sua fala final é genial, quebra todo o medo que Noah tinha do pai.

PS2: A editora mandou um livro com os primeiros caps e desenhos para pintarmos. Um livro que fala de arte, vamos incentivar não é? Fofura s2

PS3: Além do meu amor por gêmeos, a obra ainda traz um personagem profundo como Guillermo sendo hispânico. E tinha que ser Frida o nome da gata dele hahahahah

E aí, já conheciam a obra? Deixo o booktrailer!


Alguma coisa está acontecendo no rosto dele agora, algo muito brilhante tentando transparecer, uma represa contendo toda uma parede de luz. A alma dele deve ser um sol. Nunca conheci ninguém que tivesse alma de sol. (pág. 79)






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