14 de agosto de 2016

Tinha uns Olhos da Cor da Tempestade - M R Terci

Já disse que amo a literatura nacional? Querem saber um dos motivos que faz esse amor crescer ainda mais? O fato de nossos autores serem acessíveis. Acho perfeito ler um livro e, em seguida, não importa a hora ou o dia, ter a facilidade de enviar uma mensagem para o autor elogiando-o ou até mesmo criticando-o. E é ótimo saber que, além das minhas críticas serem, na maioria das vezes, consideradas, ainda tenho retorno por parte do autor.

Marcos R. Terci é do tipo de autor que ouve seus leitores. Tanto que decidiu inovar mais uma vez: ele anunciou que iria publicar um spin off de algum personagem do livro O Bairro da Cripta em ebook, na Amazon, e caberia aos leitores escolher o personagem. Foi realizada uma votação, e quem levou a melhor foi DEZIDÉRIO. Não votei para ele, mas levando em consideração meu afeto pelos moradores do bairro, vivos ou não, fiquei ansiosíssima para conferir um pouco mais a respeito.

Vale ressaltar, antes de qualquer coisa, que você não precisa ter lido O Bairro da Cripta para se deliciar com o conto. É algo a parte, cuja leitura pode ser realizada com apenas um dia. Não posso garantir que não ficará doente de vontade para se adentrar ainda mais na Cripta.


Dezidério é um velhinho que vive na zona rural de Tebraria, especificamente na Fazenda de Luminosa. Poderia até passar despercebido, não fosse seu comportamento tão estranho. O senhor tinha o hábito de conversar com sua sombra.

Talvez esse hábito tão louco pudesse ser justificado pela solidão que acometia Dezidério. Ele morava sozinho, não tinha amigos, e aparentava estar bem assim. Não fazia muita questão de se socializar.
 Eu sei de toda boataria existente em Tebraria, sei bem que por lá é sempre treva e frio, portanto tinha certeza, desde o início, que loucura não era o que acometia o senhor Dezidério.

Acontece que sua sombra parecia ter vontade própria, muitas vezes não se movimentava em sincronia com o velho. Aliás, os moradores contam que as vezes a sombra não o acompanhava.

Dezidério é um homem bom. É fácil identificar essa característica no personagem. Ele não conseguiu apenas a devoção dos leitores eleitores que o escolheram para protagonizar um conto. Uma sombra vinda das trevas também enxergou isso, e passou a acompanhá-lo. E, quanto mais descobrimos a respeito dessa criatura, chamada carinhosamente de “morena” pelo próprio homem, mais compreendemos sua reclusão.
"Não ofertava sorrisos aos homens, não lhes concedia amizade, mas jamais privou um único homem de sua boa caridade." - posição 67
É realmente um conto sombrio. O autor mexe com nossos sentidos e imaginação ao criar uma história tão arrepiante. E o que tem de inédito nisso tudo, além do horror, é a narração da vida do personagem.

Dezidério é um personagem incomum para protagonizar uma história de horror. Idoso e bom, ganhou os holofotes dentre os mais sanguinários leitores do horror, acredito eu, por trazer um quê de mistério e inocência em suas costas. E isso nos instiga: como poderia existir terror em torno de uma pessoa pura de coração?
"A tragédia do homem é ser mortal. A tragédia da sombra reside no fato de ser eterna, de sobreviver ao seu amo." - posição 1193
Desde a leitura de uma das obras do autor, fiquei completamente maravilhada com tamanha inteligência. Não é exagero, eu queria mesmo que todos lessem para entender o que estou falando. Marcos inova o cenário do terror nacional. Ele mostra que é capaz de criar histórias perturbadoras e inteligentes, levando em conta nossa cultura. Ele não coleta modismos, tão pouco cria personagens americanizados para protagonizar seus relatos. E mais uma vez me surpreendeu, trazendo um enredo espetacular e viciante.

Disse a ele que todas as palavras existentes em meu vocabulário para elogios se esgotaram. Leitura mais que recomendada.

ISBN: B01AVQ6E7A
Ano: 2015
Páginas: 67
Editora: Amazon
Um causo do Bairro da Cripta
Nota: 5/5

Sobre o Autor:
Foto -M.R.TerciM. R. Terci é escritor e poeta. Antes de se dedicar exclusivamente a escrita, foi advogado com especialização em Direito do Trabalho e Direito Internacional. Começou a carreira de escritor em 2004, escreveu centenas de contos e recebeu vários prêmios por suas participações em antologias e concursos de poesia.

Nascido em São Paulo, em 1973, M. R. Terci busca honrar aos Deuses da Criação Literária, devotando-se ao solitário trabalho de traçar destinos através dos meandros do horror sobrenatural.
Sua escrita tem como característica a pesquisa histórica, primando sempre pela composição poética de cada parágrafo penejado. Com base em fatos históricos, o escritor substitui os castelos medievais pelos casarões coloniais, as aldeias de camponeses pelas cidadezinhas do interior, os condes pelos coronéis e as superstições por elementos de nosso folclore e crendices populares, verdadeira transposição do gótico para a realidade brasileira.

Seus livros não são apenas para os fãs do gênero horror. Seu penejar é para quem aprecia uma narrativa envolvente, centrada na experiência subjetiva dos personagens mediante as possibilidades que o contexto sobrenatural de suas estórias permite.

É o criador da série O Bairro da Cripta, composta por contos de terror que colocam os clássicos do terror universal sob o lume dos lampiões de querosene dos sertões paulistanos do século XIX. Os dois volumes iniciais da pentalogia, Elegias e Epitáfios, foram publicados pela Editora LP-Books, respectivamente em outubro de 2014 e maio de 2015. Seguirão, ainda, as Exéquias, os Epicédios e as Endechas do Bairro da Cripta.

Atualmente M. R. Terci trabalha no desenvolvimento de Os Imperiais de Gran Abuelo – As Crônicas de Pólvora e Sangue e As Crônicas dos Negros Céus. O primeiro livro dessa série de fantasia e horror apresenta os soldados imperiais treinados pelo General Osório no reinado de Dom Pedro II, às voltas com monstros sobrenaturais libertados pelo caudilho Solano López no desfecho da Guerra do Paraguai.



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